O sonho do menino
                                    Mohammed Haga
 
                                  majela colares

 

 

Sermões e lógica jamais convencem
o peso da noite cala muito mais profundo em minha alma.
( Walt Whitman )

 

quatro horas e cinqüenta e dois minutos
madrugada... amanhecia sábado
22 de março, sábado... amanhecendo Bagdá

o menino Mohammed Haga sonhava:

rente aos seus olhos
o Tigre e o Eufrates flutuavam feito plumas
serenos... por entre o vasto Jardim de Gênesis

(o homem inerte... ainda meio argila
ainda meio homem...
Deus soprou em seus olhos secos
Deus acariciou os seus lábios cegos)

como se estivesse a folhear nuvens
Mohammed ia deixando em seu rastro de sonho
a Mesopotâmia e seus campos fartos
e seus dias férteis... sua memória
venturas e desventuras – seus deuses
edificava-se, logo adiante, em seu sono de anjo
a Babilônia... suspensa em pilastras amoritas
em tempos e faces, em faces e templos
uma outra visão em seu rastro, em seu rosto
erguia-se, imensa, a Pérsia... Ciro, Cambises... Dário I
conquistando povos, abraçando impérios
abraçando impérios, libertando povos...
em seu cavalo Cansim... negro, negro
como os cabelos longos de Anandini
negro, negro como os olhos meigos de Gondiva

o trotar de Cansim era reverenciado
(em sua negritude de véu e turbante)
por toda a Ásia Menor e mais e mais...
partindo do extremo Egito às lonjuras da Índia
ecoando do Mar da Arábia ao Mar Egeu
a sua glória, o seu esplendor, a sua glória...
Lídia, Persépolis, Susa, Pasárgada
o seu esplendor, a sua glória, a sua glória...
Pasárgada! Pasárgada!
os impérios passam... os impérios passam...

a sagrada palavra de Abraão
jejuava ainda... ainda
em noites de areias milenares
contemplando uma tarde em Ur

o menino Mohammed sonhava:

em seu resto de sono, uma nuvem única
surgia, agora, a sua Bagdá eterna e sem culpas...
chovia sobre o Tigre e o Eufrates
flores de pétalas vermelhas pontiagudas
flutuando rente aos seus olhos... feito plumas

homens, mulheres, meninos
silenciavam o horizonte sem portas
assombravam as vidraças sem luz
sem molduras, sem instantes...
adormeciam, para além das noites
os terraços de tâmaras e de luas
terraços de luas antigas da Suméria

anjos velozes voavam em todas as direções
navegando sobre os palácios
navegando sobre as mesquitas

os desertos inundavam-se de passado

de todos os recantos do mundo
avistava-se Bagdá imensamente iluminada
como em seus instantes mais remotos de sol

homens sorriam homens choravam homens...
Pasárgada! Pasárgada!
os impérios passam... os impérios passam

Mohammed sonhava
com a benção ainda possível dos céus
com a luz envolvente dos sóis
com a melodia livre e alegre dos campos
com a paz incessante das águas, dos ventos
com o futuro passado... com o passado futuro

Mohammed sonhava
com a bem-aventurança e a beleza infinita de Alá, de Javé
em todos os tempos e templos e tempos...
em toda a sua glória de Deus e princípios

quatro horas e cinqüenta e dois minutos... exatos

Bagdá sem culpas, sem porquês
é sacudida do solo feito escamas incandescentes
pairando rente às nuvens e a rastros inconfundíveis
de Mesopotâmia, de Babilônia, de Dário I, de Cansim

o menino Mohammed voou como um anjo
inocente – sorria, sorria – entre a nuvem e o sonho
voou como um anjo entre pétalas pontiagudas
vermelhas, cinzentas, encarnadas, cinzentas
violetas, cinzentas... cinzentas, cinzas... c i n z a s

Mohammed Haga
até um segundo de sonho antes
(quatro horas
cinqüenta e um minutos
e cinqüenta e nove segundos)
era, divinamente, o menino mais feliz de seu tempo
 

Recife, abril de 2003

 

 

 

             

Majela Colares (Limoeiro do Norte, CE, 1964) reside no Recife desde 1992, onde deu início à sua trajetória literária. Publicou os seguintes livros: Confissão de dívida (Biblioteca O Corumim sem Nome, Fortaleza, 1993); Outono de Pedra (Editora Giordano, São Paulo, 1994); O Soldador de Palavras (Ateliê Editorial, São Paulo, 1997); A Linha Extrema (Editora Calibán, Rio de Janeiro, 1999); Confissão de Dívida e Outros Poemas (Editora Calibán, Rio de Janeiro, 2001); O silêncio no aquário / Die Stille im Aquarium (edição bilíngue, português-alemão, tradução de Curt Meyer-Clason, Editora Calibán, Rio de Janeiro, 2004). Pertence ao Conselho Editorial de Calibán - uma revista de cultura.

 

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