sonetos
                                                       flatossílabos
                                                                             glauco mattoso

 

 

            soneto flatulento [192]


O peido, mais que o arroto, inspira o riso
gostoso, desbragado, gargalhado,
da parte de quem pode ter peidado,
enquanto os outros fazem mau juízo.

Com base no meu caso é que analiso,
pois, mesmo estando a sós, enclausurado,
gargalho após os gases ter soltado
e aspiro meu fedor, feito um Narciso.

Me ponho a imaginar a reação
de alguém afeito a normas de etiqueta
colhido de surpresa ante o rojão...

Meu sonho era peidar fumaça preta
na mesa dum banquete, para então
deixar que a gargalhada me acometa...

 

 

 

 

                  soneto mexeriqueiro [261]


Velhinhas são terríveis quando em grupo.
Cochicham, falam mal da vida alheia.
Na mesa, antes do chá, depois da ceia,
partilham seu muxoxo e seu apupo.

Mas quando elas gargalham, me preocupo,
pois sei que o ar em volta se empesteia.
Alegam "solfejar", porém se leia
"peidar"; e trocam "causos" sobre "estrupo".

São todas de família de italiano,
por isso cantarolam tarantelas.
Seus peidos têm fedor de gás butano.

Criança ainda, eu tinha medo delas.
Gagás, agora causam maior dano:
É que solfejam rindo, as tagarelas!

 

 

 

 

                soneto hilário [281]


O gás paralisante entendo e explico.
O gás lacrimogêneo faz sentido.
Porém o que me deixa estarrecido
É o gás hilariante e o pó de mico.

Produto duma indústria de milico,
a cócega e a coceira têm servido
ao dom de especialistas do prurido,
e cresce, mais e mais, o seu fabrico.

Pra mim, é um desperdício, pois dispenso
maiores artifícios pro meu riso.
Basta descontrair quando estou tenso.

Peidar é tudo aquilo que preciso:
me faz dar gargalhadas, porque penso
na paz do olfato alheio, que infernizo.

 

 

 

 

            soneto dos eflúvios [792]


De todos os sentidos, é o olfato
sutil por excelência: de mistura
estão vários odores, e a figura
do cheiro bom ou mau é caso abstrato.

Perfume ou fedentina? Desempato
apenas pelo senso, que perdura,
do nojo sugerido, o qual censura
um hálito, a carniça, o lixo, o flato.

Quem disse que uma flor exala o aroma
mais "doce" ou que uma fruta a "azul" recende?
Por que o chulé "tresanda" quando assoma?

Tão só de opinião tudo depende:
se fungo não é coisa que se coma,
como é que há quem meu queijo recomende?

 

 

 

 

                  soneto de todas as vontades [811]


Sentada no penico, a garotinha

se esforça e faz careta. Escorre o ranho
do lindo narizinho. E que tamanho
e odor tem o cocô que ela retinha!

"Coragem, meu amor!", diz-lhe a madrinha,

"Depois cê vai tomar aquele banho!"
"Só isso?", ela sorri, "Que mais eu ganho?"
"Um beijo!" "Ah, quero um quarto e uma cozinha!"

Brinquedos tem de monte, mas não faz
cocô todos os dias, a coitada.
Apenas faz barulho e solta gás.

E quando no penico não tem nada,
a infanta, em vez do beijo dum rapaz,
suplica um cocozão à sua fada!

 

 

 

 

                soneto da plataforma [819]


Lançar foguete é coisa pra nação
bastante adiantada! A nossa está
na quarta tentativa: chega lá
um dia, de explosão em explosão...

Soltar foguete é fácil: todos dão
estouros caso o time à final vá.
Político que morre também dá
motivo a que soltemos um rojão.

Se "lança" um candidato, um livro, um disco...
Se "solta" um pum, a franga, um bom detento...
Em qualquer caso, corre-se algum risco.

O peido é barulhento ou fedorento.
O eleito, ou rouba quieto, ou faz confisco.
O autor, ou vende muito, ou tem talento.

 

 

 

             

Glauco Mattoso é pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, poeta paulistano nascido em 1951. Portador de glaucoma (doença que lhe causou a cegueira em 1995 e da qual tirou o nome literário), revelou sua rebeldia entre os chamados "poetas marginais" da geração 70, com seus temas agressivos e transgressivos. Depois de perder a visão, passou a dedicar-se ao soneto e à poesia de cordel, formas rigorosas de versificação nas quais continua extravasando sua revolta. Mas o poeta maldito também faz pausas para refletir sobre temas mais amenos e positivos, como os cães de estimação, os pássaros, os pratos apetitosos e o carinho pela cidade em que nasceu, à qual dedica haicais, glosas e sonetos memoráveis.

 

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+ LITERATURA

  ¡  tradução  ¡  Bashô e cummings : por Paulo de Toledo :  ¡  Ionesco : por Geraldo Lima :  ¡  Zimmermann : por Daniel Glaydson :

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