Conto Nº 1
                    eugène ionesco
 
                                                                                geraldo lima
                                                                                                         ( tradução )

 

 

            Josette já é uma menininha bem crescida, ela tem trinta e três meses. Uma manhã, como de costume, ela avança com seus passinhos até a porta do quarto dos seus pais. Ela tenta empurrar a porta, tenta abri-la, como se fosse um cachorrinho. Ela perde a paciência, chama, e isso acorda os seus pais, que fazem de conta que não estão ouvindo.

            Nesse dia, seu papai e sua mamãe estavam muito cansados. Na véspera, eles tinham ido ao teatro, ao restaurante; depois do restaurante, ao teatro de marionetes. Agora, eles estavam com muita preguiça. E isso não é bonito para os pais!...

            A empregada também perde a paciência. Ela abre a porta do quarto e diz: “Bom-dia, senhora, bom-dia, senhor, aqui está o seu jornal da manhã, aqui está a correspondência que os senhores receberam, aqui está seu café com leite adoçado, aqui está seu suco de frutas, aqui estão seus croiassants, aqui está seu pão torrado, aqui está sua manteiga, aqui está seu doce de laranja, aqui está sua geléia de morango, aqui está seu ovo estrelado, aqui está o presunto e aqui está a sua filhinha.”

            Os pais estavam enjoados, pois eu esqueci de dizer que, após o teatro de marionetes, eles ainda tinham ido ao restaurante. Os pais não querem beber o café com leite, eles não querem o pão torrado, eles não querem os croissants, eles não querem o presunto, eles não querem o ovo estrelado, eles não querem o doce de laranja, eles não querem seu suco de frutas, eles não querem também a geléia de morango (não era mesmo de morango, era de laranja).

— Dê tudo isso a Josette, diz o papai à empregada, e quando ela tiver terminado, traga-a de volta.

            A empregada pega a criança nos braços. Josette berra. Mas como ela é gulosa, ela se consola comendo na cozinha: o doce da mamãe, a geléia do papai, os coissants dos dois; ela bebe o suco de frutas.

— Oh! que apetite de ogro! diz a empregada. Você tem o olho maior que a barriga!...

E para que a criança não fique doente, é a empregada que bebe o café com leite, come o ovo estrelado, o presunto, e também o arroz-doce que havia sobrado da noite anterior.

            Durante esse tempo, o papai e a mamãe adormecem de novo e roncam. Mas não por longo tempo. A empregada leva de volta Josette ao quarto deles.

— Papai!... diz Josette, Jacqueline (esse é o nome da empregada), Jacqueline comeu o seu presunto.

— Não faz mal, diz o pai.

— Papai, diz Josette, conte uma história para mim.

E enquanto a mamãe dorme, pois ela está muito cansada por ter se divertido tanto, o papai conta uma história para Josette.

            — Tinha uma vez uma menininha que se chamava Jacqueline.

— Como Jacqueline? pergunta Josette.

— Sim, diz o papai, mas não era Jacqueline. Jacqueline era uma criança.

            Ela tinha uma mamãe que se chamava senhora Jacqueline. O papai da pequena Jacqueline se chamava senhor Jacqueline. A pequena Jacqueline tinha duas irmãs que se chamavam Jacqueline, e dois priminhos que se chamavam Jacqueline e uma tia e um tio que se chamavam Jacqueline.

            O tio e a tia, que se chamavam Jacqueline, tinham dois amigos que se chamavam senhor e senhora Jacqueline, e eles tinham uma filhinha que se chamava Jacqueline, e um garotinho que se chamava Jacqueline, e a filhinha tinha umas bonecas, três bonecas, que se chamavam: Jacqueline, Jacqueline, e Jacqueline. O garotinho tinha um coleguinha que se chamava Jacqueline, e cavalos de madeira que se chamavam Jacqueline, e soldadinhos de chumbo que se chamavam Jacqueline.

            Um dia, a pequena Jacqueline, com seu papai Jacqueline, seu irmãozinho Jacqueline, sua mamãe Jacqueline, vai ao bosque de Boulogne. Lá, eles encontram seus amigos Jacqueline com a filhinha Jacqueline, com o filho Jacqueline, com os soldadinhos de chumbo Jacqueline, com as bonecas Jacqueline, Jacqueline, e Jacqueline.

            Enquanto o papai conta essas histórias para a pequena Josette, entra a empregada. Ela diz: “O senhor vai deixar essa menina louca!....”

            Josette diz à empregada: “Jacqueline, nós vamos ao mercado?” (pois como eu disse, a empregada se chamava também Jacqueline).

            Josette vai fazer as compras com a empregada.

            O papai e a mamãe dormem de novo, pois eles estavam muito cansados, eles tinham ido, na véspera, ao restaurante, ao teatro, ainda ao restaurante, ao teatro de marionetes, depois ainda ao restaurante.

            Josette entra numa loja com a empregada e lá ela encontra uma menininha que estava com os pais. Josette pergunta à menininha:

— Você quer brincar comigo? Como você se chama?

— Eu me chamo Jacqueline, responde a menininha.

— Eu sei, diz Josette, seu papai se chama Jacqueline, seu irmãozinho se chama Jacqueline, sua boneca se chama Jacqueline, seu vovô se chama Jacqueline, seu cavalo de madeira se chama Jacqueline, sua casa se chama Jacqueline, seu potinho se chama Jacqueline....

            Então, o dono da loja, a esposa do dono da loja, a mamãe da outra menininha, todos os clientes que estavam na loja voltaram-se para Josette e fitaram-na com os olhos cheios de espanto. “Não é nada, diz tranqüilamente a empregada, não se preocupem, são as histórias idiotas que o seu pai lhe conta.”

 

 

 

             

Eugène Ionesco nasceu em 26.11.1909 (Slatina, Romênia) e faleceu em 28.03.1994 (Paris, França). Escritor e dramaturgo. Autor da peça A Cantora Careca, considerada marco inicial do Teatro do Absurdo.

Geraldo Lima nasceu em Planaltina (GO) em 1959 e vive em Sobradinho (DF). É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira.  Já foi premiado em vários concursos literários. Tem os seguintes livros publicados: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF, 1997); Baque (contos, LGE Editora/FAC, 2004); Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE Editora, 2004). Participou, em 2004, da Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, org. por Ronaldo Cagiano). Teve, em 2005, textos publicados nas seguintes revistas eletrônicas: Messaginabotou e Bestiário. É autor das peças de teatro Error (encenada pela Oficina do Teatro de Periferia) e Trinta gatos e um cão envenenado (inédita).

 

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