um jesus cristo
                                   superstar
        
sergio vilas boas

 

 

Assustado com o barulho estridente da porta da estação sendo
aberta, Angel acordou de um pulo. O funcionário da New York Transit
não se assustou com a presença de Angel. Deve estar acostumado a
ver vagabundos e homeless escornados por toda a cidade. Contudo, não
deixa de fitar Angel, pelo fato de os tufos de cabelo cortados com te-
sourinha sem ponta estarem espetados e endurecidos. Angel desvia o
olhar. A madrugada não lhe fora piedosa. Segundo a edição do The
New York Times
, que chegara às bancas antes da primeira hora daque-
le 1º de outubro de 1988, a temperatura média prevista era de 15 graus Celsius.

Para quem bateu queixo na prisão no último inverno, 15 graus não eram nada. Muito menos para um Lagense. Entorpecido pelo sono, sentindo ainda a ressaca do baseado, ele venceu sua primeira madrugada. Mas quando despertou, de cabeça desfeita, o frio bateu fundo. Foi aí que Mauro Pompeu sentiu os dentes baterem no compasso de marcha-lenta de um motor desregulado. O funcionário da NYT descerrou a porta de aço e, conforme o indicado na placa, as pessoas começaram a descida pela escadaria da 49 às 6:00 p.m. em ponto.

Se dependesse só do instinto, Angel as teria acompanhado estação adentro, de onde parecia vir um reconfortante vapor quente, embora cheirando a mofo e umidade. Mas não. Esperou um pouco mais, ali mesmo, debaixo dos trilhos da porta de aço, com um amargo gosto de interrogação na boca. Era como se tivesse entendido que muita coisa acontecera nos últimos meses, apesar de não parecer. Mais ainda: muita, muita coisa havia acontecido no dia anterior, o último de um setembro longo e calorento, que não combina em nada com os overcoats e botas guardados aos montes nos guarda-roupas dos nova-iorquinos.

Agora sim. Angel percebia que tivera uma noite dura não apenas por causa do queixo batucando mas também por causa dos pés murchos, folgados dentro das botas Zebú que ele trouxe de Lages. Precisava de pés saudáveis para caminhar, do mesmo modo como só pôde contar com eles quando fugiu apavorado da Estação Merillon Avenue, no Distrito de Nassau, cinco anos depois, no dia em que o jamaicano Colin Ferguson puxou o gatilho de sua pistola Rugger 9mm contra os passageiros do terceiro vagão do trem suburbano da LIRR.

Até aquela sua primeira noite em Manhattan, numa escadaria fria da Estação 49th Street, a vida de Angel Benadski como imigrante ilegal - mais ilegal do que a maioria - poderia ter tido um desfecho menos arrasador. A prisão nos porões do INS, a morte da mãe ou a ajuda de Allan Whitaker, nada, nada disso lhe tinha marcado tanto a memória quanto a imagem de seu companheiro de Exército e de bolinhas de gude, Sergio Vinólio, com o rosto destroçado pelas rajadas de metralhadoras dos traficantes tocaiados às margens do Rio Paraguai.

Foi esta a imagem que Angel novamente viu diante de si, ressaqueado, ao galgar a escadaria da Estação, incerto sobre o que ia encontrar, sobre que direção seguir. Um dos olhos de Sergio Vinólio, lembra, tinha-se transformado no gargalo de um cilindro de uns 20 milímetros de diâmetro, que terminava do outro lado de sua cabeça, por onde uma das dezenas de balas o atravessou.

Por isso mesmo, Angel custou a perceber a Times Square ressurgindo à medida que ele subia (um a um) os vinte degraus que o tiravam de um subsolo cheio de trilhos, trens e ratos enormes. Enquanto isso, a Broadway, a famosa avenida, misturava-se em sua memória ao semblante vazio e ensangüentado de Sergio Vinólio.

Uma única coisa fez dissipar esta chama de dor do coração do nosso rebelde silencioso: o ronco pujante de uma motocicleta Yamaha 1200 cilindradas, grená metálica - paralamas, faróis, suspensão, cabeçote e manetes cromados. No momento em que atinge o último dos degraus e põe-se de pé no plano da calçada da Broadway, de frente para um anúncio em preto e branco da Calvin Klein, do outro lado, o escapamento da moto bafora. Em questão de segundos, vira uma simples silhueta na retina de Angel. Era com uma bike daquelas que ele sonhava desde garoto, mas ela nunca passou de uma figurinha carimbada em seu álbum infanto-juvenil Duas Rodas.

Seja como for, o “despoder” não invalida o sonho de ninguém. Ainda no Brasil, a muito custo, Angel conseguira comprar uma Yamaha RX-125, ano 79, cujo motor dois tempos exalava pelas ruas de Lages uma fumaça azulada, fedendo a óleo de rícino queimado; a motoquinha que mal aguentava subir a Serra de São Joaquim; mas que contribuiu no pagamento do passaporte falso que ele hoje leva dentro da cueca. Paixão por paixão, melhor que seja por uma mulher e não por uma coisa de duas rodas que nem tanto poder lhe dava assim.

Ainda inseguro quanto à direção, acabrunhado, com medo de que o povo da Big Apple reconhecesse sua estrangeirice, Angel caminhou pela calçada da Broadway. Logo viu que, ao contrário, nenhuma alma viva observava-lhe os desajeitos ou a sinuosidade de seus passos de ressucitado recente. O céu estava limpo e claro, e assim deve ter ficado durante todo aquele 1º de outubro, sábado.

No mesmo dia, Plínio se deliciava pela última vez no corpo moreno-liso-esguio da noiva Élvia, num acampamento selvagem próximo à Cachoeira do Cornélio, na Serra do Cipó, a mais ou menos cem quilômetros de Belo Horizonte.

 

 

trecho do capítulo "Um Jesus Cristo Superstar"
do livro Os Estrangeiros do Trem N

 

             

Sergio Vilas Boas é jornalista, professor e escritor. Nasceu em Lavras, MG, morou em Belo Horizonte e New York/USA. Reside em São Paulo. Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, onde desenvolve tese de doutorado. Autor entre outros de Os Estrangeiros do Trem N (Prêmio Jabuti 1998 na categoria livro-reportagem, Editora Rocco) e Perfis: e como escrevê-los (Summus, 2003). Um dos criadores e editor-executivo do site www.textovivo.com.br.

 

;:;;

;;:

+ LITERATURA

¡  tradução  ¡
¡  Eugène Ionesco : por Geraldo Lima :
¡  Solange Rebuzzi : por Ana Lía Torre :
¡  Tania Alice Feix : por Daniel Glaydson :

(  prosa  (
André Monteiro  Amilcar Bettega
Carlos Perktold  Geraldo Lima
Gilmar de Carvalho  Pedro Salgueiro
Ronaldo Cagiano  (  Sergio Vilas Boas

ADJACÊNCIAS

}  artigos  }
} André Monteiro antropofagiza Oswald, Chacal, etc
} Cândido Rolim pensa o grau zero dos sentidos
} João Tomaz Parreira ceifa Pessoa e Wordsworth 
} José Aloise Bahia reflete culturas, massas, imagens
} Luiz E. Alves desconfia dos críticos malvados
©  crítica  ©
© Dênis Melo atormenta-se com Alcides Pinto
© Rodrigo Marques lê o último do Bonfim
© Ronald Augusto decifra Joan Brossa

:;;

;;:;

.: editorial :

  Alice                       Bonfim                       Glaydson

.: contato .

 famigerado@famigerado.com