Perguntar não machuca:
Beber água é tomar banho por dentro?

                                            rodrigo marques


 

 

E não é que o correio chegou! Um envelope papel-madeira, recheado. Quando abri, uma gota azul caiu: o livro Beber água é tomar banho por dentro (Edição dos autores: Sobral: 2006), de Luciano Bonfim, com xilogravuras de Rodrigues Neto, talhadas a partir dos desenhos das crianças de Sobral e Carnaubal: Isabela, Isabelle, Ludimila, Levi, Kevin, Guto, Benjamim, Pietro, Daniele, Mauricélia, Johathan, Natércia, Leandro, Sávio, Maria Alice, Isaac Lucas, Daiane e Bianca! Ufa! A turma do aquário, no céu e na terra, pescaria pura.

            O livro bem poderia vir estendido em um varal: poema, xilogravura, poema, xilogravura, poema, xilogravura, com um pegador na ponta, página por página, até pendurar as 59 páginas do conjunto, como um trabalho escolar, lúdico e caseiro que se seca ao Sol. Aliás, o livro parece ter saído de uma oficina, de um ateliê coletivo, de uma aula: mestre, maestro e aprendiz; cola, lápis e pincel. No fim, sobressai uma “cartilha”, um “abc”, uma “tabuada” toda azul, que recorta os limites da dúvida e das certezas.

            São 22 poemas para responder ou perguntar. O próprio título traz uma afirmação às avessas, iniciando a investigação poética que se dará ao longo deste quadrado em forma de livro. A tentativa de explicar o mundo através de silogismos e de pontos de interrogação surpreendentes, desautomatizantes, provoca no leitor a sensação de segurar a chave e o cadeado do enigma, a senha e o login, mas valerá à pena abri-lo? “Porta é o que não deixa a rua entrar em casa/ Casa é o que falta para muitas pessoas/ Rua é onde a porta não entra”. Não importa, a dúvida surge mesmo nas afirmações mais óbvias, a dúvida é coisa do homem, desvendar o enigma é desfazer o homem.

            Neste contrapasso, Luciano Bonfim, o autor dos poemas, desce no terreiro do verbo Ser, este Senhor ocidental, e o faz brincar com as dúvidas e afirmações que Ele próprio constrói, pois “Para conhecer, deve-se perguntar”. A criança se diverte com as afirmações que vai disseminando ao longo do caminho, formando um intrigado e intrigante labirinto que cresce à medida que ela pergunta e responde, à medida também que ela acompanha visualmente as xilogravuras da página oposta. Por aí, abre-se um aproveitamento didático do livro perfeitamente útil para estimular o raciocínio e a criatividade de adultos e crianças, mais ainda quando se incorporam ao texto elementos das cantigas e brincadeiras populares, como as parlendas, os trava-línguas, as charadas etc. Ótima oportunidade para iniciar o estudo de filosofia, através de uma poesia e de uma arte visual calcada na Curiosidade, esta girafa, este cavalo curioso cujo pescoço não parou de crescer. Fica aí a dica para os professores de filosofia do ensino fundamental.

            A forma simples com a qual o livro foi concebido graficamente também estimula a produção de pequenas publicações, de feitio artesanal, que bem poderia se desenvolver de forma mais sistêmica nas comunidades e escolas do nosso Estado, abrindo assim uma compreensão mais global do Livro, abrangendo a escrita, a ilustração, a parte gráfica e a distribuição.

            Por tudo isso, agradeço ao correio que me fez chegar às mãos um livro de muita dignidade e trabalho, com boa poesia e um catatau de pontos de interrogação.

            Luciano Bonfim é co-editor da revista famigerado, e já publicou Dançando com sapatos que incomodam – contos (2002); escreveu e montou as peças As mulheres cegas (2000) e Auto do Menino Encantado (2002). O autor visual do livro é Rodrigues Neto, professor da Universidade Vale do Acaraú – a UVA, Universidade que apoiou a publicação.

 

 

 

 

Rodrigo Marques, 25, vive em Fortaleza-CE. Formado em Direito e mestre em Literatura Brasileira. Autor de Fazendinha.

 

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LITERATURA

¡  tradução  ¡
¡  Eugène Ionesco : por Geraldo Lima :
¡  Solange Rebuzzi : por Ana Lía Torre :
¡  Tania Alice Feix : por Daniel Glaydson :

(  prosa  (
André Monteiro  Amilcar Bettega
Carlos Perktold  Geraldo Lima
Gilmar de Carvalho  Pedro Salgueiro
Ronaldo Cagiano  (  Sergio Vilas Boas

+ ADJACÊNCIAS

}  artigos  }
} André Monteiro antropofagiza Oswald, Chacal, etc
} Cândido Rolim pensa o grau zero dos sentidos
} João Tomaz Parreira ceifa Pessoa e Wordsworth 
} José Aloise Bahia reflete culturas, massas, imagens
} Luiz E. Alves desconfia dos críticos malvados
©  crítica  ©
© Dênis Melo atormenta-se com Alcides Pinto
© Rodrigo Marques lê o último do Bonfim
© Ronald Augusto decifra Joan Brossa

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