2 contos
             
                                         pedro salgueiro

 

 

 

            Aleine
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O caso se deu na época em que eu buscava desesperadamente Aleine. Desde o início da tarde haviam me expulsado, pois cometi a imprudência de perguntar por ela. Fui abandonado numa passagem de nível, quando o trem diminui a marcha, logo após aquele aguaceiro de fins de maio. Vaguei pela linha férrea, na esperança de escutar algum apito ou sentir qualquer chacoalhar nos trilhos; enfim desisti e tomei certo caminho secundário que descia rumo a um imenso vale — bem ao longe uma cordilheira azulzinha quase se confundia com a linha do horizonte. Demorei a encontrar sinal de vida, apurando o ouvido ao mínimo indício de vento, de vez em quando esfriava a cabeça com água de um córrego ou subia numa pedra para buscar qualquer povoação.

         Já no final da tarde distingui, de cima de um carvalho, a fumaça de uma chaminé — andei mais alguns quilômetros para avistar a torre de uma igreja. Apressei o passo, querendo chegar no começo da noite — planejava misturar-me com algumas vacas que seguiam na direção do vilarejo. Encontrava-me na entrada quando notei a placa de advertência: “Estamos de mudança”. Tudo tinha sido tão estranho — desde que fui obrigado a descer daquele trem — que não me dei conta do absurdo da situação: eu, procurando minha mulher que havia sumido misteriosamente, fui me deparar com um lugarejo perdido, e logo na entrada era recebido por tal advertência.

Esqueci pela primeira vez Aleine e perambulei por ruas escuras, apenas iluminadas com raros lampiões dependuradas em árvores no meio da rua. Esgueirava-me pelas sombras dos muros, evitando assim a claridade — com medo de ser reconhecido (o que, hoje lembrando, seria mais um absurdo em meio a tantos: pois como poderiam me reconhecer se nunca eu havia andado por aquelas paragens, tão ermas e distantes da cidade em que nasci!?). Pareciam não me notar, apenas ficavam mais sérios — cerravam os olhos e carregavam o semblante, como certos pais ainda hoje fazem para repreender os filhos pequenos quando eles cometem qualquer danação. Paravam a conversa no meio, interrompiam jogos de cartas, mudavam de calçada ao ter de cruzar comigo — não se dirigiam a mim, é verdade, mas eu sentia neles um certo medo, um vago receio da minha presença. Subi em uma grande árvore para passar a noite — não me arriscava a dormir desprotegido em qualquer banco da praça. Não conseguia pregar olhos, o medo e a excitação dos últimos dias mexeram com meus nervos — e as noites não me permitiam um minuto de descanso. Aproveitei a calma da madrugada para pensar em Aleine, e já sonhava com um novo encontro quando ouvi vozes distantes: confabulavam, discutindo não sei que assunto, pois o vento de vez em quando mudava de direção para em seguida trazer novamente os sussurros — trepei num galho mais alto da árvore, e então pude avistar ao longe uma pequena assembléia, juntavam galhos, acendiam tochas (em quase todas as casas, sinais de mudança: malas nas calçadas, carroças sendo cobertas, mulheres ajeitando as crianças) — formavam uma enorme fogueira, enquanto discutiam apontando em várias direções.

De repente um medo tomou conta de mim, as pernas tremiam, o suor cobrindo meu corpo inteirinho: pensei rápido, um imenso desespero invadindo meus pensamentos; saltei ligeiro da árvore e disparei na mais apressada carreira de que minhas pernas foram capazes, no rumo oposto ao da claridade. Corri a madrugada inteira, subi e desci serras, encontrei nova estrada — sempre me afastando.

Hoje não me arrisco a perguntar por Aleine, apenas observo disfarçadamente os rostos femininos em meio à multidão. Não olho muito para não despertar suspeitas, pois sei que — enquanto eu a procuro — muitos fariam de tudo para me impedir de chegar a ela.

 

 

 

 

                              Prisioneiros
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          Os vagabundos que foram presos nos arredores da cidade não tiveram muita sorte em escolher aquela época do ano para virem pedir esmolas em nossas ruas. No começo eu também achava que eles eram espiões de nossos aguardados invasores, mas, com o tempo, fui me convencendo de que não passavam de uns pobres coitados cujas culpas não iam além de algum furto de galinha ou roupa em qualquer quintal. Nunca os perigosos inimigos mandariam batedores tão idiotas e sem nenhum disfarce. Cheguei a estas conclusões depois de rever meus apontamentos sobre os muitos suspeitos que estive a investigar durante quase toda a minha vida. Não possuíam nada que lembrasse o povo que um dia cheguei a visitar sem querer; nada do olhar perdido, melancólico... e, além do mais, aqueles que acabavam de ser presos eram suspeitos demais para a especial missão de nossos invasores: porque sempre imaginei os inimigos como superiores a nós em físico e inteligência, portanto nunca poderiam ser aqueles miseráveis os culpados por uma rede sofisticada de espionagem.

Parecia tarde para convencer nossos habitantes do seu equívoco em prender os coitados: eles já estavam amarrados com uma corda única pelos braços e pés, encangados como se fossem animais em parelha, atrás uns dos outros; também rasparam suas cabeças descuidadamente (deixando à mostra alguns tufos de cabelo pregados nos crânios) e vinham percorrendo rua a rua, beco a beco de nossos povoados. Os mais exaltados à frente, fazendo discursos, e os outros seguiam atrás se revezando nos açoites com galhos de urtiga cansanção e nos cutucões com pontas de vara. Os forasteiros iam salpicados de sangue nas costas e braços, e os vergalhões das urtigas queimavam-lhes o pescoço e a barriga. A meninada se divertia correndo ao redor, gritando muito e vez por outra atirando pedras com estilingues, tudo isso em meio a uma grande alegria (eram os únicos que aparentavam não compreender a gravidade da situação e apenas se divertiam). Quase tinham percorrido todos os vilarejos, quando foram perceber que os prisioneiros não agüentariam por muito tempo; foi aí então que me aproveitei (visto que eu jamais convenceria meus companheiros da inocência dos mendigos) e lancei a idéia de os manter vivos, para que pudéssemos interrogá-los quando eles se recuperassem. Apesar de alguns terem sido contra, a maioria achou lúcida minha proposta e me delegou a tarefa de ir diariamente à cadeia investigar suas verdadeiras intenções em ultrapassar os nossos limites territoriais.

Por várias semanas estive a cuidar deles com presteza (as feridas já cicatrizavam, e aos poucos conseguiam se manter de pé). Nada falavam, pois o medo continuava estampado em seus olhos. Durante este tempo, organizei minuciosamente a fuga, de maneira que não levantasse a mínima suspeita sobre mim. Um belo dia (uma bela manhã, para bem dizer) fui acordado com o alarido nas ruas e, através dos gritos, fiquei sabendo que os prisioneiros haviam fugido.

Nunca conseguiram provar nada contra mim, e as únicas lembranças que trago daqueles dias são estas marcas no meu corpo... decorrência das muitas pedras que alguns ainda teimam em me atirar todas as vezes em que eu insisto em sair às ruas.

 

 

 

             

Pedro Salgueiro nasceu em 1964, em Tamboril-CE. Publicou O Peso do Morto (contos, 1995; 2ª ed, 1997), O espantalho (contos, 1996) e Brincar com Armas (contos, 2000). Participa das antologias Talento cearense em contos (1996), Geração 90: Manuscritos de computador (2001), Antologia de contos cearenses (2004), Os cem menores contos brasileiros do século (2004) e Contos Cruéis (2005). Dos prêmios que recebeu destacam-se o II Prêmio Ceará de Literatura (1994), o da Fundação Cultural de Fortaleza (1994, 1995 e 1998), a Bolsa para autores brasileiros com obras em fase de conclusão, da Fundação Biblioteca Nacional (1997), e o do Concurso de Contos Guimarães Rosa, patrocinado pela Radio France Internationale (1999).

 

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