Névoa
              
            geraldo lima

 


 

            Deve ser dia. Ouve-se já o ruído de sempre quando amanhece:
os primeiros ônibus dando o ar da sua graça, entupidos de gente sono-
lenta, sem ânimo; os primeiros passos ressoando na calçada, indo para
o trabalho, supõe; um passarinho que canta todas as manhãs na copa da
mangueira, um sabiá, tem quase certeza (meu Deus, o que faz um sabiá
aqui,  longe, longe do seu mundo?!); uma tosse, uma garganta que se li-
vra do catarro logo cedo, na casa vizinha.

            Todos os dias é assim, logo que o sol atravessa as vidraças e as cortinas e avança sobre o breu dos quartos. Há anos ele assiste a esse espetáculo, passivo, quase alheio. Houve um tempo, porém, em que era parte pulsante dele, um dos seus  protagonistas. Agora, muito pouco  lhe resta  ainda para extrair da vida. Sabe que não tarda a noite eterna, avessa à luz, por isso procura sempre se adiantar ao movimento incessante do dia: é o primeiro a se levantar, abrir a porta do terreiro e respirar o arzinho frio da manhã que se inaugura. — Pai, não passa daí, viu? Nada de ir pra rua — já ouviu mais de uma vez a filha recomendando, proibindo, delimitando seu território.

            Antigamente, era ele quem ia à padaria comprar o pão e o leite. Quando todos acordavam, o café já estava pronto e a mesa posta. Hoje, é essa inutilidade  que levanta e nada mais pode fazer. Que não pode nem atravessar a fronteira que separa a casa da rua.  O mundo tornou-se perigoso, vasto, indecifrável: uma armadilha para os velhos e as crianças.  O mundo-monstro. O além-mar, o além-portão. O que a mente, gasta, já não pode compreender. O que os olhos, minimizados, já não podem abarcar.

            Da sala dá pra ouvir o burburinho de agora e o de muito tempo atrás, com outros sons, obviamente, outros destinos. Esse barulho de roda sobre o asfalto ainda molhado de sereno é da carroça de Minervino, não tem dúvida. Passou a vida toda ouvindo isso, como pode não ter certeza? A voz de dona Efigênia conversando com o leiteiro, ah, o leite que ele vende não é que nem aquela água rala que a gente compra na padaria. Não, não, é leite da fazenda mesmo, saído há pouquinho do úbere da vaca. Vai comprar é desse leite, queira sua filha ou não.

            Ah, demorou tanto a decidir se comprava ou não o leite que o homem já foi embora. Nem sombra também de dona Efigênia. Aliás, a rua lhe parece agora muito diferente. Que terá acontecido? Mundaréu de carro indo e vindo.  Tem mais barulho aqui fora do que ele consegue ouvir lá de dentro. Também a audição anda meio fraca ultimamente. — Pai, cadê o aparelho pro ouvido, hein? Como o senhor vai ouvir alguma coisa se não usa? Parece criança. Usar até que ele usa, mas não o tanto que devia. Põe  e logo retira: o trem lhe dá gastura, é um incômodo insuportável. Prefere ouvir tudo minguado mesmo, retalhos de conversas, palavras mutiladas, sem adorno, sem sentido. Agora, o silêncio é uma ilha onde ele, náufrago do tempo,  sente-se seguro e em paz.

            Bem que ele queria atravessar a rua, ir até a padaria em frente, mas essa névoa que cobre tudo não deixa. De uns tempos pra cá, as manhãs têm sido assim: vestidas com essa névoa rala, mas persistente.  Pra piorar, sua vista anda muito fraca, quase não lhe deixando reconhecer as pessoas nem as coisas do dia-a-dia. Juntando-se a isso o fato de a sua memória estar falhando freqüentemente, tem-se o quadro clínico completo da sua decadência.  Uma merda! É até motivo de riso. Tratam-no agora como se fosse criança. — Pai, o senhor já almoçou, já se esqueceu?  — Ah, é mesmo, concorda, enquanto é açoitado pelo riso dos netos.     

             O rapazinho que o ajudou a atravessar a rua tinha bem as feições do filho de dona Ilda, mas pareceu não lhe reconhecer. Estranho, na padaria ninguém o reconheceu também. Mas custava terem  vendido o pão e o leite pra ele pagar depois? Um tempo atrás, não era assim: podia entrar ali sem um tostão no bolso e sair com um saco cheio de pão, que o dono confiava. Ah,  também ele tinha que esquecer onde morava logo agora? Pai de quem? Não, não se lembrava. Que aflição! Que desespero silencioso e trágico.

            Tudo, tudo parece fazer parte de um outro mundo agora. Tem coisa que está aqui e que não estava há um tempo atrás. Esse prédio aí, isso não existia. Essas casas apagadas pela névoa lhe parecem familiares, mas muitas lhe dão a impressão de terem nascido agora, de uma fôrma que ele desconhece totalmente.  Mesmo assim vai se arriscar a ir um pouco mais adiante, até a esquina. Antes de seguir, olha para trás e é como se alguém tivesse passado uma borracha na paisagem, apagando o mundo de onde ele havia emergido: tudo o que lá está, acabou de brotar do nada.

            Poderia entrar em pânico, mas já está bastante velho para se desesperar à toa assim. Para quem já passou por situações muito mais complicadas do que essa e tirou de letra, isso é nada. O que tem que fazer é ir em frente.  Tem quase certeza de que a casa do seu compadre Gérson fica só um pouco mais adiante. Vai aproveitar então esse passeio pra lhe fazer uma visitinha, assim mesmo, sem avisar. Um dedo de prosa com ele, logo de manhã, vai lhe fazer bem, pois tem vivido muito só, sem o calor das conversas com os velhos amigos.  

            O diabo é que ninguém parece conhecer mais os outros nessa cidade. — Não, não mora ninguém aqui com esse nome, não. O senhor tem certeza que é esse o nome? Ora,  por acaso ele está gagá ou louco? Dá vontade de dizer umas coisas, mas é melhor deixar pra lá. Essa gente não merece nem o seu desprezo. Não faz muito tempo, e todo mundo se conhecia. Fulano era filho de sicrano, neto de beltrano, e pronto. Entrava na casa de qualquer um a hora que fosse. Agora, mal abrem a porta. Parece que tá todo mundo se borrando de medo.

            Resolve mudar de plano e virar à esquerda, descendo a rua. Vai só um pouco mais adiante e depois decide o que fazer. Sabe que tem que voltar pra algum lugar, só não se lembra bem pra onde. É bem capaz que esse lugar também nem exista mais.  Há tempos, talvez, ele esteja andando assim pela rua, sem rumo certo, barata tonta em meio à multidão. As idéias estão meio confusas, mas não é nada com que se deva preocupar demais. O negócio é ir tocando a vida. Quem já viveu tanto não vai se assombrar com pouca coisa.

A cidade agora está toda de pé, numa agitação danada. Isso até que o distrai e o anima. Quem sabe encontra um conhecido e acaba entrando num bar pra tomar uma pinga, como nos velhos tempos. Sente uma vontade doida de gritar, de apertar a mão dos passantes, de dizer bom-dia, como antigamente. Onde está aquele calor de antes? O que houve com aquele mundo? Não é possível reconhecer mais nada, nem ser reconhecido.

A névoa, ah, névoa!  

Apesar desse quadro desanimador, sente uma sensação gostosa de liberdade, como se já não lhe importasse mais a idéia de um lugar fixo onde devesse chegar. Apesar do cansaço, sente-se uma criança disposta a brincar o dia inteiro. Tem energia de sobra. Não fosse essa névoa que o segue por onde ele vai, como uma maldição ou prenúncio da noite que não clareia nunca, poderia ir até o fim do mundo sem temer cair no abismo.

 

 

 

             

Geraldo Lima nasceu em Planaltina (GO) em 1959 e vive em Sobradinho (DF). Publicou: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF, 1997); Baque (contos, LGE Editora/FAC, 2004); Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE Editora, 2004). Participou, em 2004, da Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, org. por Ronaldo Cagiano). É autor das peças de teatro Error (encenada pela Oficina do Teatro de Periferia) e Trinta gatos e um cão envenenado.

 

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+ LITERATURA

¡  tradução  ¡
¡  Eugène Ionesco : por Geraldo Lima :
¡  Solange Rebuzzi : por Ana Lía Torre :
¡  Tania Alice Feix : por Daniel Glaydson :

(  prosa  (
André Monteiro  Amilcar Bettega
Carlos Perktold  Geraldo Lima
Gilmar de Carvalho  Pedro Salgueiro
Ronaldo Cagiano  (  Sergio Vilas Boas

ADJACÊNCIAS

}  artigos  }
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