Conto Nº 2
                    eugène ionesco
 
                                                                                geraldo lima
                                                                                                         ( tradução )

 

 

 

         Naquela manhã, o papai de Josette levantou-se cedo. Ele tinha dormido bem porque, à noite, não havia ido ao restaurante comer chucrute. Ele não havia ido também tomar sopa de cebola na feira.  Não havia comido também chucrute em casa. O médico o havia proibido.  Papai está de dieta.  E como ele estava faminto ontem à noite, deitou-se bem cedo, pois “quem dorme esquece a fome”.

           

            Josette bateu à porta do quarto de seus pais. A mamãe havia partido. Ela não estava na cama, talvez ela estivesse sob a cama, ou talvez no armário, mas o armário estava trancado. Josette não pôde ver sua mamãe.

 

Jacqueline, a empregada, disse a Josette que sua mamãe havia  saído cedo porque  ela havia também deitado muito cedo: ela não havia estado no teatro de marionetes, ela não havia estado no teatro, ela não havia comido chucrute.

 

Jacqueline, a empregada, disse a Josette que sua mamãe acabara de sair com a sombrinha rosa e as luvas rosa, e os sapatos rosa, e o chapéu rosa com flores, com a carteira rosa, com o espelhinho na carteira, com o lindo vestido florido, com o bonito casaco florido, com suas meias floridas, com um belo buquê de flores nas mãos, porque a mamãe gosta de se vestir muito bem, a mamãe tem belos olhos iguais a duas flores.  Ela tem uma boca que parece uma flor.  Tem um pequeno nariz rosa como uma flor.  Os cabelos parecidos com flores. Ela tem flores nos cabelos.

 

Então Josette vai ver o  papai no escritório. O papai telefona, e ele fuma e fala ao telefone. Ele diz: “Alô senhor, alô, é o senhor?... Eu já havia pedido para o senhor não me telefonar mais. Olha, o senhor me aborrece.  Eu não tenho nem mais um segundo a perder”.

Josette pergunta ao seu papai:

    Você fala ao telefone?

O papai desliga o telefone. Ele diz:

— Isso não é um telefone.

            Josette responde:

            — É sim, é um telefone. Foi a mamãe que me disse. Foi a Jacqueline que me disse.

            O papai retruca:

            — Sua mamãe e Jacqueline estão erradas. Sua mamãe e Jacqueline não sabem como isto se chama. Isto se chama queijo.

            — Isso se chama queijo? pergunta Josette. Então  a gente deve acreditar que  é  queijo.

            — Não, diz o papai, porque o queijo não se chama queijo, ele se chama caixa de música. A caixa de música chama-se tapete. O tapete chama-se abajur. O teto chama-se soalho. O soalho chama-se teto. A parede chama-se porta.

            E o papai ensina a Josette o sentido correto das palavras. A cadeira é uma janela. A janela é um tinteiro.  A almofada é um pão. O pão é o tapete do quarto.  Os pés são as orelhas. Os braços são os pés.  A cabeça  é  o bumbum. O bumbum é a cabeça.  Os olhos são os dedos. Os dedos são os olhos.

 

            Então Josette fala tal qual seu pai lhe ensina. Ela diz:

            — Eu olho pela cadeira comendo minha almofada.  Eu abro a parede, eu caminho com minhas orelhas. Eu tenho dez olhos para caminhar, eu tenho dois dedos para olhar.  Eu me sento com minha cabeça sobre o soalho. Eu ponho meu bumbum no  teto.  Quando eu como a caixa de música, eu passo doce no tapete do quarto e tenho uma boa sobremesa.  Pegue a janela,  papai, e desenhe as  imagens pra mim.

             

            Josette tem uma dúvida:

    Como se chamam as imagens?

O papai responde:

            — As imagens?... Como se chamam as imagens?... Não se deve dizer “imagens”, deve-se dizer “imagens”.

            Jacqueline chega. Josette corre em direção a ela e lhe diz:

            — Jacqueline, você sabe, as imagens  não são as imagens, as imagens são as imagens.

            Jacqueline diz:

            — Ah! ainda as bobagens do seu pai!... Mas sim, minha  criança, as imagens não se chamam as imagens, elas se chamam as imagens.

            Então o papai diz a Jacqueline:

    É bem isso que Josette lhe disse.

    Não, diz Jacqueline, ela diz o contrário.

    Não, retruca o papai, é você que diz o contrário.

    Não, é você.

    Não, é você.

    Os dois dizem a mesma coisa, diz  Josette.    

          E eis que chega então a mamãe de Josette, como uma flor com flores no seu vestido florido, sua carteira florida, seu chapéu enfeitado de flores, seus olhos iguais a flores,  sua boca como uma flor...

    Onde você foi tão cedo?, pergunta-lhe papai.

    Colher flores, responde-lhe mamãe.

E Josette diz:

            — Mamãe, você abriu a parede.

 

 

 

             

Eugène Ionesco nasceu em 26.11.1909 (Slatina, Romênia) e faleceu em 28.03.1994 (Paris, França). Escritor e dramaturgo. Autor da peça A Cantora Careca, considerada marco inicial do Teatro do Absurdo.

Geraldo Lima nasceu em Planaltina (GO) em 1959 e vive em Sobradinho (DF). Publicou: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF, 1997); Baque (contos, LGE Editora/FAC, 2004); Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE Editora, 2004). Participou, em 2004, da Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, org. por Ronaldo Cagiano). É autor das peças de teatro Error (encenada pela Oficina do Teatro de Periferia) e Trinta gatos e um cão envenenado.

 

;:;;

;;:

+ LITERATURA

¡  tradução  ¡
¡  Eugène Ionesco : por Geraldo Lima :
¡  Solange Rebuzzi : por Ana Lía Torre :
¡  Tania Alice Feix : por Daniel Glaydson :

(  prosa  (
André Monteiro  Amilcar Bettega
Carlos Perktold  Geraldo Lima
Gilmar de Carvalho  Pedro Salgueiro
Ronaldo Cagiano  (  Sergio Vilas Boas

ADJACÊNCIAS

}  artigos  }
} André Monteiro antropofagiza Oswald, Chacal, etc
} Cândido Rolim pensa o grau zero dos sentidos
} João Tomaz Parreira ceifa Pessoa e Wordsworth 
} José Aloise Bahia reflete culturas, massas, imagens
} Luiz E. Alves desconfia dos críticos malvados
©  crítica  ©
© Dênis Melo atormenta-se com Alcides Pinto
© Rodrigo Marques lê o último do Bonfim
© Ronald Augusto decifra Joan Brossa

:;;

;;:;

.: editorial :

  Alice                       Bonfim                       Glaydson

.: contato .

 famigerado@famigerado.com