A divina relação do corpo,
                                  a divina relação do gozo
                      dênis melo

 

 

A arte é uma febre, um momento mágico, divino.
Como o amor, é um tormento e um calvário.
( JAP – DN Cultura, 1997 )


 

                                     A impressão que a obra de José Alcides Pinto, escritor cearense, autor de
                         uma vasta obra que inclui romances, contos, poesias, teatro, crítica literária etc.,
                         nos causa, é sempre a de “Uma estadia no inferno” [1]. Um tormento varre toda
                         a sua obra para debaixo de nossos mais caros conceitos e pré-conceitos. Desde o
                         amor, que cheira a excremento, até  a loucura, que surge como “um facho a
                         varrer a noite escura” [2]. A obra de JAP é assim: iconoclasta. Ler Alcides Pinto
                         é descobrir que os poderosos  da terra têm sempre os pés de barro. E muito
                         mais:  ler JAP é pavimentar o chão de nossas vidas com o exaspero da dúvida e com o limiar da certeza – eis o paradoxo maior para quem pensa apenas no começo, no meio e no fim. A arte, como “a supressão do incredulidade”, no dizer de Nélida Pinõn, credita à palavra, em especial, o manancial da cultura, uma vez que discernimos a palavra como alavanca de manejo...

            JAP é casa de muitas portas. Homem de muitas vidas. De múltiplos livros. De múltiplos dons. Ler Alcides é experimentar o fio das palavras, a navalha dos sentidos... O seu texto ( sua escritura), entre cândido e febril, deságua em nós – corredeira avassaladora. É assim que me sinto todas as vezes que leio um livro de JAP, desalmado, e com A Divina Relação do Corpo, reimpresso em 2003, já em sua 4a edição,  não poderia ser diferente [3]. Experimentar o amor de tantas mulheres é, como nos mostra o romance, de certa forma,  nascer do ventre de tantas deusas-mães. Saber de tantas mulheres é saber-se em perigo, isso porque, Delumeau, historiador francês, em seu livro História do Medo no Ocidente, elenca os principais medos do ocidente, reconhecendo que todos eles residem num só – o medo da mulher... Esse José de que fala o romance, é labiríntico. Ele se encontra para se perder. Ele se perde para se encontrar. Ele seria o próprio JAP, na carnadura de uma escrita que como Kafka, busca o chão de sua própria vida rudimentar para alimentar a sua fome de existência, num excessivo retorno a si mesmo, quase que como uma purgação?

            O texto de Alcides Pinto não pesa, não tomba, não delimita. Ele é o exato sentido entre a obra de arte e a barbárie. Aquela barbárie de que fala Benjamin, e que acompanha a civilização, braçada a braçada. A barbárie na Divina Relação Corpo é o amor carnal abrupto e ao mesmo tempo aconchegante. O amor-animal. Vigoroso. Estúpido. Comovido. Terno. Quase fútil, mas carnalmente útil para a voragem da vida. O amor conjugado com a volúpia. O amor patético, mas também profundamente poético, lírico. A beleza “dos quadris redondos como dois frutos geminados”, conduz-nos aos “seios desenhados sob a blusa e todo o seu volume como uma bola premonitória de cristal adivinhando o nascimento do mundo”, cativa, diviniza, escandaliza...

            Ler JAP é achar-se em labirinto [4]. A peregrinação caótica de José pelo amor de tantas e tão vastas mulheres emblemáticas, em sua justa medida, me lembra a confiança de Ariadne na volta de seu amado. José deixa-se largar, sem limites. José deixa-se enlear. Perde o fio da meada. Mas no final de tudo, sempre consegue desatar todos os nós... E fica uma pergunta: qual é a sua verdadeira escolha?  Ele escolhe tais mulheres ou é simplesmente escolhido?

            A Divina Relação do Corpo tem um começo e um fim emblemáticos. Quando o autor pergunta: “O que é uma obra literária?”, ele está nos fazendo mergulhar na consecução do máximo sentido do ocidente, para quem a palavra é viga de sustentação, arcabouço da cultura, liga de metal que liga os tempos. Desde Platão, em seu Fedro, até agora, em nossa sociedade da comunicação, a escritura ocidental busca o seu “pai”, o seu guia. Somos platônicos muito mais que cristãos. Por outro lado, na quinta parte do livro, intitulada A Punição, o autor (máxima invenção da Modernidade) nos pergunta: “Como seria o amor antes do nascimento do mundo?” Mas... por que o amor?? Qual a sua força? Qual a sua essência? E isso nos faz perguntar por que tanta fome de amor quanto da verdade? Nossa necessidade da verdade tem um “culpado” – Platão. Mas e o amor?? Mas se “a merda é o elemento básico da composição do amor. Quem sabe até do amor de Cristo pela humanidade”, por que amar soluciona??

            A obra de José Alcides Pinto soluciona, isto sim, um grave problema entre nós – a da maturidade e da possibilidade do romance como um texto balizador de outros textos em suas muitas reentrâncias sociais. Como uma transfiguração da realidade, o texto do “Poeta Maldito”, com-prova que “só a arte fica, por isso só a arte vê-se, porque dura”...


 

[1] José Alcides Pinto tem em Rimbaud um de seus autores mais caros. Considera a sua pequena obra Uma Estadia no Inferno um dos livros mais impressionantes que já leu, chegando a repetir inúmeras vezes que não se deve emprestar Rimbaud para ninguém. E foi lendo na própria casa de José Alcides Pinto, que entrei em contato com a obra do genial poeta francês.

[2] Numa referência ao poema “Cântico Negro”, de José Régio, poeta português moderno e uma das vozes mais interessantes da poesia portuguesa do século XX.

[3] Lendo o livro é o próprio poeta que parece aflorar em cada página e em cada trama. Considerada a devida distância, a lembrança que vem à minha memória são os livros de Kafka, quando certamente o K de muitas romances do escritor, soa como o próprio Franz Kafka quase que completamente dilacerado, em seu peso e medida.

[4] Quando descobri Alcides Pinto ainda em minha adolescência, lendo um livro chamado Cantos de Lúcifer, algo de surpreendente ocorreu comigo, já que vinha da leitura principalmente de Álvares de Azevedo, poeta ultra romântico, e dos autores cearenses. Estava acostumado a ler Jáder de Carvalho, poeta terno e romântico. Ler JAP foi encurtar o caminho de volta pra casa, e “de volta ninguém se perde”, como escreveu José Américo de Almeida, mas ao mesmo tempo foi achar um certo vazio que foi preenchido depois a partir da leitura de outros autores, como Guimarães Rosa, por exemplo.

 

 

 

 

Dênis Melo, nasceu em 1968, em Sobral-CE. Professor do curso de História na Universidade Estadual Vale do Acaraú. Publicou Memória de Pássaros (poemas adolescentes, 1990).

 

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